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PARTE I Sempre que surge a necessidade de escrever sobre emagrecimento me vejo diante de um grande desafio, tendo em vista a complexidade do tema e a quantidade de variáveis que interferem na construção do excesso de peso. Infelizmente, o acúmulo de gordura corporal é - ao meu ver - um distúrbio psico-orgânico-energético que movimenta uma crescente engrenagem comercial milionária na sociedade do “Ter”. As vendas de medicamentos, alimentos dietéticos, shakes, livros e revistas para a boa forma aumentam enquanto renomados pesquisadores se dedicam a encontrarem alguma substância química encapsulada que possa, milagrosamente, reverter esse “mal”. Concomitantemente, milhares de pessoas convivem com uma sintomatologia expressada no corpo que representa, apenas, a ponta do iceberg. Sempre que um cliente me pergunta quantos quilos perderá em um mês, sinto vontade de não responder. Não por arrogância e nem por má vontade, simplesmente por não se tratar de matemática. Salvo algumas fórmulas redutoras, tipo bomba-atômica, que interferem no metabolismo e fazem o indivíduo subtrair de 6 a 10kg no mês, o corpo responde, com uma perda de 2 a 4 kg mensais quando existe um tratamento multiprofissional. Isso para muitos é pouco e gera revolta, desânimo e perda de adesão ao tratamento. Mas, se aprendermos a olhar para as causas e fizermos um diagnóstico do nosso modo de viver, de nossas escolhas, conseguiremos entender o que se esconde por trás do acúmulo de gordura. Torna-se mais fácil lutar contra o inimigo quando o mesmo é conhecido. Deste modo, convido você a investir alguns minutos do seu tempo na leitura das possíveis causas que lhe fizeram chegar até o peso em que está agora. - Distúrbios Hormonais: tanto no consultório quanto em família já escutei algumas pessoas atribuindo o peso excedente ao mau funcionamento da tireóide. Essa pequena glândula secretora de um importante regulador metabólico - a Tiroxina - quando desregulada, pode gerar uma famosa disfunção denominada Hipotireoidismo. Ao contrário do que se imagina, o mixedema (acúmulo de substância gelatinosa nos tecidos) provocado por este distúrbio, contribui com não mais que 3 ou 4kg no peso corporal. É notável que acusar a tireóide de ser o fator determinante da condição torna-se um grande equívoco. Desfeito este mito, precisamos destacar a influência de, pelo menos, oito hormônios conhecidos que estariam envolvidos no processo de acúmulo de gordura: insulina, glucagon, grelina, estrogênio, testosterona, neuropeptídeo Y, leptina e hormônio de crescimento são eles. Como saber se algumas destas substâncias são as vilãs? Neste caso, o Endocrinologista é o profissional indicado para traçar este diagnóstico. Aliás, gostaria de desfazer outro equívoco: ir ao endocrinologista para fazer dieta. Sabe-se que esta especialidade médica estuda as desordens do sistema endócrino e suas secreções específicas chamadas hormônios. Quando há alguma falha na liberação hormonal - falta ou excesso - este profissional realiza a prescrição do medicamento ou cirurgia a fim de corrigir a alteração. Onde cabe aí prescrever dietas? Ainda não encontrei explicações, especialmente quando me lembro da lei em que cita esse direito como privativo do Nutricionista. - Fatores Emocionais: segundo Henry Maudsley, “quando o sofrimento não consegue se expressar pelo pranto, ele faz chorar outros órgãos”. No que tange à gordura, esta pode ser uma espécie de “casulo” que o indivíduo cria, inconscientemente, para se proteger e se esconder dos problemas externos. Em alguns casos, representa um mecanismo emocional para conseguir certos benefícios ou atrair compaixão, atenção e afeto ou escapar de certas situações e obrigações que trazem desconforto. Além disso, a transferência para o alimento pode simbolizar as faltas existenciais ou a busca de prazer e alegria. Em muitas situações, pode demonstrar a repetição de um hábito de infância que remete a um passado mais agradável, com mais afeto. Destaca-se, ainda, a importância dos nossos registros de infância que de uma forma ou de outra, interferem em nossas escolhas: comer para ficar forte, comer para não ficar fraco, se comer tudo será um vencedor, criança gordinha é criança saudável, se comer será um super herói, etc.; são inúmeros estímulos que podem ser interpretados de maneira distorcida pelo inconsciente e resultar em padrões de compulsão, em momentos de vulnerabilidade emocional. - História Social: existe uma grande dificuldade em romper com os hábitos alimentares inadequados quando o círculo familiar ou de amigos apresenta hábitos poucos saudáveis. Fazer escolhas benéficas ao corpo pode significar uma situação de exclusão e diferenciação para quem deseja um estilo de vida salutar. - Genética: os genes podem influenciar na obesidade através da produção de substâncias que regulam o balanço energético do organismo. Porém, sabe-se que a expressão genética é geralmente atenuada ou exacerbada pelos fatores ambientais como alimentação e exercício físico. Gêmeos idênticos, por exemplo, se forem criados separadamente, sob condições diferentes, podem apresentar padrões distintos de peso. - Alimentação Errada: sabe-se que não somente a quantidade de alimentos, mas a qualidade pode influenciar no padrão de depósito de gordura. Além disso, erros na alimentação podem ocasionar desequilíbrio tanto na parede intestinal quanto no padrão de bactérias deste órgão resultando em Disbiose Intestinal, distúrbio que acarreta alteração da permeabilidade intestinal e má absorção de elementos que são imprescindíveis para um metabolismo saudável. Sendo assim, o organismo prejudicado por deficiências nutricionais perde a capacidade de queimar as calorias ingeridas, resultando em sobrepeso e obesidade. Cabe ressaltar, que existem alimentos com propriedades termogênicas, ou seja, aceleram o gasto calórico. Além disso, alguns estudos mostram relação entre jejum menor que 3 horas e perda de peso. - Inatividade Física – a falta de atividade física contribui de forma significativa para o aumento da massa gorda. É sabido que dependendo do tempo e intensidade, o movimento contribui para queimar gordura. Além disso, atividades específicas podem influenciar na regulação hormonal. Exemplos: corrida e spinning regulam testosterona (acelera o metabolismo e mantém a massa muscular); 1h de exercício aeróbico (caminhada) ao dia ajuda a reduzir Grelina e com isso, modera o apetite; dentre outros. Destaca-se também, a importância da atividade física no controle do estresse, condição que interfere em hormônios, aumenta o peso e a compulsão alimentar. - Idade: ao envelhecer, a massa muscular corporal tende a diminuir. Uma vez reduzida, altera também o gasto energético, favorecendo o ganho de peso. - Fatores ambientais: falta de espaço para lazer, falta de tempo para praticar atividades físicas para pessoas que trabalham muito, grande quantidade de “fast foods” e lanchonetes de lanches rápidos, dificuldade de encontrar alimentos saudáveis em determinados locais, a correria do dia-a-dia, todas essas dificuldades causam desânimo e falta de persistência para seguir um estilo de vida favorável ao peso saudável. - Sono inadequado - atualmente já se conhece o impacto do sono profundo na liberação hormonal. O hormônio do crescimento (acelera o metabolismo e mantém massa muscular), por exemplo, tem a sua liberação intensificada nas duas primeiras horas de sono profundo. Insulina (aumenta depósito de gordura) e cortisol (aumenta a retenção de líquido e gordura visceral) também são reduzidos pelo sono profundo. - Medicamentos: alguns medicamentos podem levar ao ganho de peso, como os corticosteróides, alguns tipos de antidepressivos e algumas medicações utilizadas para tratamento da epilepsia. Enfim, foram citados os principais mecanismos que interferem na gênese do ganho de peso. Não se sabe ainda quem é o elemento determinante da situação, mas certamente nossa consciência pode perceber que todos estão interligados e que precisamos, deste modo, começar a produzir resultados. Isso nos direciona a um check up médico, a realização de exercícios, a procurar um Nutricionista, a assumir uma postura mental mais produtiva, dentre outros. Isso consiste em buscar a motivação certa para o emagrecimento e intervir naquilo que estiver ao nosso alcance. Significa abandonarmos os por quês que nos aprisionam no vitimismo e mudar a intenção ao fazer algo: em vez de insistir na lamentação e se estagnar no papel de vítima, aceitar o convite para um novo aprendizado. Sabe-se que isso não se encontra em cápsulas ou em dietas imediatistas.“Emagrecer é um ato de coragem porque requer passar por mergulhos profundos na busca do verdadeiro motivo que mantém seu peso elevado.*” Por Ana Paula Santos.
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